Era domingo de manhã de um Setembro nublado.
Saiu de casa sem muito a fazer, apenas comprar frutas e pão.
Ela atravessou a rua.
De longe o viu distraído, em frente à livraria.
Ele estava vestindo a velha calça xadrez e o casaco que ela havia lhe dado no ultimo aniversário antes da viagem que os separou anos atrás.
Não sabia o que fazer. Andar até ele e abraçá-lo como se fosse um dia comum e seguir juntos ao mercado como se o tempo não tivesse passado. Ficar de longe guardando as lembranças e deixando tudo como está.
Se deixou paralisar e deu as costas tomando outro caminho.
Ela sabia que ele voltara havia algumas semanas. Chegou a imaginar que ele a procuraria ou apareceria em sua casa de repente. Mas já havia acalmado o coração e esquecido o delírio até então.
Lembrou que o amava. Lembrou do medo que sentia por não saber como seria amar outra pessoa, como a mesma luz se acenderia dentro dela e como seria se deixar amar tão simplesmente por alguém diferente.
Mas o que era isso, do que estava falando? Isso já havia sido superado, ela já era feliz novamente, tinha sua vida, seu trabalho, já não chorava mais. Nunca mais chorou.
Aquela visão abriu uma janela para uma paisagem já sem cores.
Seguiu em frente e foi atrás das cores das frutas e do perfume do pão.
Pequenas coisas lhe davam imenso prazer.
Atravessar a rua numa manhã de poças d´água respirando umidade das árvores e o vento frio eram um acontecimento.
Os olhares para ela eram outros. Ela estava viva e se via na paisagem completamente leve.
Um homem magro, de cachecol e olhos falantes atravessou no sentido contrário e prendeu segundos da sua atenção e respiração. Sentiu um frio na barriga. Foi como se ele, com os olhos, tivesse levado um pouco de sua alma.
Seguiu mais leve ainda por isso.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Liberdade
Como que por encanto,
iluminada em sorriso
acalmo o coração.
E pleno,
parte em nova viagem
tal como pipa que se solta da linha
colore o céu e se diverte com o vento.
Na terra, meninos em alvoroço
correm por cima dos telhados e árvores
a tentar alcançá-la.
A pipa, livre, se ri,
mais moleque que todos eles juntos.
iluminada em sorriso
acalmo o coração.
E pleno,
parte em nova viagem
tal como pipa que se solta da linha
colore o céu e se diverte com o vento.
Na terra, meninos em alvoroço
correm por cima dos telhados e árvores
a tentar alcançá-la.
A pipa, livre, se ri,
mais moleque que todos eles juntos.
Sem Fim
Quando se tarda revirando a alma
explicando ao vento o que viveu,
a névoa dos olhos se dissolve
e a imagem que se vê no espelho
não é mais aquela frágil manifestação.
Se antes o medo do reflexo ignorava a imagem,
agora mostra o que aprendeu.
Olha em volta e percebe:
você cresceu.
explicando ao vento o que viveu,
a névoa dos olhos se dissolve
e a imagem que se vê no espelho
não é mais aquela frágil manifestação.
Se antes o medo do reflexo ignorava a imagem,
agora mostra o que aprendeu.
Olha em volta e percebe:
você cresceu.
Soundtracks#2
Vai aí mais um punhado de memória musical.
Sonífera Ilha [Titãs], eu tinha 11 anos, menina magrela, cabelos curtinhos, com minha blusa de helanca azul marinho de gola rolê, no inverno de Vila Valqueire. Eu ia de patins comprar pão na padaria e ouvia num rádio perto a música top das paradas.
Eu sei [Legião], Violão nos intervalos das aulas, meu primeiro namorado;Polícia [Titãs], nas festas do colégio, era o máximo dançar se jogando uns nos outros, eu era timida e não fazia, ficava só olhando morrendo de vontade. Fui aprender a "me jogar" anos depois;
Every Breath you take [The Police], Stephen King, tardes de cinema com Isa e Cla;
Brothers in arms [Dire Straits], uma festa, um amor platônico. O primeiro de tantos. Era mais fácil de administrar.
This Charming Man [Smiths], mais festas, dançar sempre foi meu bagulho!!!
Blue Velvet [Bobby Vinton], filas para senhas no CCBB, filme francês...
Let´s Dance e Ashes to ashes [David Bowie], adolecência, timidez, espinhas na cara, calça jeans e camiseta branca. Eu era nerd! Adorava musica francesa e rock inglês, bem deprê. Tinha poucos amigos, mas fiéis até hoje.
People are strange e Love me two times [Doors], faculdade, viagens, festas, noites viradas trabalhando, namorando, dançando, pessoas estranhas, muitos amigos, outros nem tanto;
Love Shack [B52], Dr Smith madrugada a dentro;
Eu te amo [Chico Buarque], uma história de altos e baixos;
Senhas [Adriana Calcanhoto], as pessoas mudam... ou não mudam e a gente se cansa delas?
Samba de Roda [Maria Bethania], três da madrugada, um galo canta lá longe. Vila Valqueire é quase uma cidade do interior. Hora de limpar a prancheta e constatar que o trabalho não vai estar pronto quando o portão do vizinho ranger a fechadura;
Agora só falta você [Rita Lee], formatura e um pedido de casamento. Foi bonito!
Heroes [D. Bowie], crises e esperança... depois mais crises;
Socorro [Arnaldo Antunes], foi quando assisti o primeiro show do Arnaldo, no palco do finado Ball Room, ele cantava e parecia traduzir exatamente o que eu estava sentindo ha meses, ou seja nada!
Perfect day [Lou Reed], uma paixão fulminante;
Quereres [na voz de Maria Bethania], poesia e música juntas numa só voz.
O amor [Secos e molhados] maturidade, clarividência;
Eu [Pato Fu] Novos ventos virão...muitas vontades, minhas vontades.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
No mar outra vez
Foi como se meu corpo já esperasse por cada movimento, cada pedaço de mim se sentisse confortável e naturalmente se envolvesse em nuvens que navegam no vento sem esforço.
Eu reconhecia aquele destino.
O tempo experimentado com calma num mergulho suave, o perfume preciso e os olhos, sem querer acordar de um sonho, enxergavam através do seu espelho.
Eu poderia ficar ali para sempre.
Dividir um prazer, um sonho, um desejo.
Me tomou.
Me levou embora de um jeito que não consegui evitar.
Não me sentia assim em paz desde muito tempo.
Me levou e ainda não voltei.
Quando acordei, estava num bote à deriva sem entender exatamente o que tinha me virado do avesso.
As mãos se ocupavam perdidas, um vácuo enchia o peito, a pele doía só com a roupa, o ar entrava e não saía. A cabeça latejante evitava outros pensamentos e os dias passavam em cenas de um filme mudo.
Hoje, lembro do gosto do acontecido como quem lembra do mar, que me levou e ainda não voltei.
Eu reconhecia aquele destino.
O tempo experimentado com calma num mergulho suave, o perfume preciso e os olhos, sem querer acordar de um sonho, enxergavam através do seu espelho.
Eu poderia ficar ali para sempre.
Dividir um prazer, um sonho, um desejo.
Me tomou.
Me levou embora de um jeito que não consegui evitar.
Não me sentia assim em paz desde muito tempo.
Me levou e ainda não voltei.
Quando acordei, estava num bote à deriva sem entender exatamente o que tinha me virado do avesso.
As mãos se ocupavam perdidas, um vácuo enchia o peito, a pele doía só com a roupa, o ar entrava e não saía. A cabeça latejante evitava outros pensamentos e os dias passavam em cenas de um filme mudo.
Hoje, lembro do gosto do acontecido como quem lembra do mar, que me levou e ainda não voltei.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Paulo Leminski
Um bom Poema
Paulo Leminski
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
----------------------------
Isso é porque ando feliz
e quando estou feliz,
com a cabeça nas nuvens,
sem a veia dramática que inflama de vez em vez,
não me baixa nada na cabeça
que queira subir pro papel e me puxar junto de volta.
sábado, 7 de agosto de 2010
Florbela Espanca
Amar
[Florbela Espanca]
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
[Florbela Espanca]
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
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