domingo, 29 de maio de 2011

Recorrendo aos santos em oração



















Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida


Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria


Cazuza & Chagal

sábado, 14 de maio de 2011

Dia de chuva e Cortazar

El breve amor
Con qué tersa dulzura
me levanta del lecho en que soñaba
profundas plantaciones perfumadas,

me pasea los dedos por la piel y me dibuja
en le espacio, en vilo, hasta que el beso
se posa curvo y recurrente,

para que a fuego lento empiece
la danza cadenciosa de la hoguera
tejiédose en ráfagas, en hélices,
ir y venir de un huracán de humo...

Por qué, después,
lo que queda de mí
es sólo un anegarse entre las cenizas
sin un adiós, sin nada más que el gesto
de liberar las manos ?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Tempestade

Depois de três dias de ventos fortes
que reviraram memórias e sentidos
fechou a janela e tentou dormir.
O que sentia era uma vibração intensa.
o sangue correndo pelas veias,
relâmpagos ofuscando seus olhos e
trovões explodindo em seus ouvidos.
Parecia entorpecida numa pista de boate,
escura e barulhenta,
querendo controlar as pernas
que não queriam ser controladas.
Simplesmente dançavam.
Uma sensação de que daquele dia em diante
Nada mais seria como antes.
Nada mais teria a mesma cor
o mesmo cheiro
o mesmo som.

terça-feira, 29 de março de 2011

Agora vive!!!



















Não sabia como nem onde.
As pernas ainda tremiam.
Era cedo e já estava na rua.
Tonta, ainda pensando pra onde devia ir.
Tudo acontecia muito rápido.
O coração tinha assumido o controle da vida e ela se desprendeu do chão sem pensar.
De vez em quando olhava pela janela daquele voo cego e levava um susto. Essa sou eu??!!
Para em seguida ouvir de dentro:
Esquece! Sou eu seu que estou no comando agora!
Foi surpreendida por um sentimento de segurança e certeza que nunca tinha tido antes.
A paz era quase suspeita. Procurava sob as palavras e olhares as pistas dos problemas.
Nada.
Tudo muito simples e honesto.
Nada de jogos ou reticencias.
Tudo ali na vitrine do inicio ao fim.
Não era isso que você queria?
Agora vive!

terça-feira, 1 de março de 2011

Permissão para ser feliz

Numa página em branco, as palavras teimam em escorregar.
O passo apressado do coração,
o vinho, o vento, o sono,
me deixam transparente diante da voz que vem de dentro
e se pulveriza em um simples querer.
Ainda dissolvo a noite em gotas de realidade.
Em preto e branco repasso cada momento
para depois colorir de risos,
fechar os olhos e
apenas sentir.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

silêncio

"O poema

antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
...ante a página em branco
(...)
O poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer (...) Fica o dito pelo não dito - FGullar

...mais ou menos assim é o silêncio
silêncio que grita oco
dentro da caixa do peito
que nenhum entorpecente
é capaz de libertar
que nenhum broto de céu
pode lançar em voo cego
em direção à palavra

do amor escondido nos olhos
sobra o gosto seco do tempo

amar não faz sentido
se a voz é água represada em
toneladas de pedras

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Natal RN - Fragmentos de viagem

Aeroporto, mala, espera, voo, lanchinho econômico de avião, chegamos e mergulhamos imediatamente no universo da família.
Família, quando observada corretamente, explica muita coisa quando se trata de entender suas origens. Qualidades e defeitos podem ser vistos em volumes aumentados neste ou naquele parente, ficando mais fácil de se identificar aquele incomodo que às vezes se tem com determinado comportamento dos pais ou até seu mesmo e que não se sabe de onde vem. Pois é, quando se vê a manada se entende a zebra.
São quatro gerações, a original, vô Zé Luiz e vó Juraci, queridos mas já falecidos, os filhos e filhas que saíram de Natal e foram para o Rio ou para outras cidades ganhar a vida, os netos e agora os bisnetos. Juntando tudo isso, ou quase tudo, já que parte da família se mantém afastada por brigas e discórdias insuperadas, rende muitas histórias e muitas piadas.


Ponta Negra é um bairro e sua praia de mesmo nome me lembra a Barra há anos atrás quando da construção dos primeiros prédios. Muitas casas de centro de terreno, originalmente um conjunto de casinhas iguais que foram se transformando ao gosto do morador em anos de ocupação.  Há muitos centros de venda de artesanato, alguns shoppings, restaurantes, mas o comércio é pouco voltado para o morador local, prioriza o turista. Pra quem está acostumada a dobrar a esquina e comprar pão, andar léguas sob o sol até a padaria é uma experiência perturbadora.


Na praia, se vende de tudo, de comida a roupas, toalhas de mesa bordadas, artesanato e até musica. Carrinhos com auto-falantes a pleno volume passam sem parar com funk, pagode, forró, axé, tecno-eletro-dubs e afins vendendo seus cds. Piratas, lógico.


A luz é intensa, o dia amanhece as 5 ou 5:30 e não há horário de verão, então, as 6 já estamos de pé, as 9 já estamos cansados de estar em casa, mas sair requer alguma força de vontade, já que os tentáculos da família são longos e fortes e o sol lá fora já é tão forte quanto o de meio dia. É um ar puro, sem poluição. O céu à noite é cheio de estrelas. Bonito.

As histórias de violência na cidade aumentaram, mas nem se compara à banalização do crime do Rio de Janeiro. São roubos de quintal, invasão de casas de veraneio, assaltos no centro, golpes em turistas, etc..
Os taxistas são mal humorados. O morador local é discriminado e uma corrida curta gera muita reclamação. O bom e velho germe cretino do brasileiro que tanto quer se dar bem, já que o turista pode ser enrolado e gastar mais. Até o trocador do ônibus se faz de desentendido pra ver se cola, não devolvendo o troco da passagem.

O povo em geral é receptivo, meio bruto, mas simpático. As ruas são relativamente limpas. Não sei exatamente como por que não vejo lixeiras e nem garis... E falta educação e consciência. Muita gente joga lixo nas ruas e as calçadas são ocupadas por carros estacionados sem critério. Em termos de preços, a cidade se equipara ao Rio de Janeiro, porém os salários são bem menores, o que faz de Natal uma cidade muito cara para o morador. Os funcionários de lojas e restaurantes são visivelmente insatisfeitos, o que me faz crer em um regime exploratório de empregos.  

Um hábito me chamou a atenção. Demorei para descobrir, por que raios algumas garotas andavam com um band-aid na sobrancelha. Comecei a ver com certa frequência e desconfiar de alguma moda e até temer um serial-killer. Mas descobri que se trata de um ritual para os aprovados no vestibular. Os garotos raspam as cabeças, mas as garotas aqui raspam uma das sobrancelhas. Fica medonho! Mas o orgulho delas é grande.

Hoje, só uma semana depois de chegar, estive no centro da cidade, bairro da Ribeira e imediações com suas edificações antigas, muito art deco, simples mas bem característico, edifícios neo clássicos, neo coloniais, chalés... Mas infelizmente a maioria está bem deteriorada pelo tempo.


O comércio esconde as fachadas sujas com letreiros medonhos, o Iphan atua timidamente, o povo não aprecia nem reconhece valor nesses prédios. São prédios velhos que ninguém entende por que estou interessada. As igrejas principais e alguns edifícios importantes, estão relativamente preservados.


Vejo também muitos elementos de herança modernista, principalmente cobogós de várias formas e tamanhos usados fartamente para privilegiar a ventilação cruzada e, como muxarabi, para quebrar a visão de fora para dentro. Nas ruas próximas às margens do rio Potengi, onde ainda mora uma população ribeirinha, as casinhas ainda preservam suas fachadas de porta e janela com elementos decorativos e geométricos.

O Forte dos Reis Magos é uma pérola preservada. A obra de Câmara Cascudo é um bem inestimável para a cultura e história do povo brasileiro, e aqui, bancas de jornal não se encontram facilmente, se chamam cigarreiras e vendem de tudo.

A viagem segue...