domingo, 13 de fevereiro de 2011

silêncio

"O poema

antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
...ante a página em branco
(...)
O poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer (...) Fica o dito pelo não dito - FGullar

...mais ou menos assim é o silêncio
silêncio que grita oco
dentro da caixa do peito
que nenhum entorpecente
é capaz de libertar
que nenhum broto de céu
pode lançar em voo cego
em direção à palavra

do amor escondido nos olhos
sobra o gosto seco do tempo

amar não faz sentido
se a voz é água represada em
toneladas de pedras

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Natal RN - Fragmentos de viagem

Aeroporto, mala, espera, voo, lanchinho econômico de avião, chegamos e mergulhamos imediatamente no universo da família.
Família, quando observada corretamente, explica muita coisa quando se trata de entender suas origens. Qualidades e defeitos podem ser vistos em volumes aumentados neste ou naquele parente, ficando mais fácil de se identificar aquele incomodo que às vezes se tem com determinado comportamento dos pais ou até seu mesmo e que não se sabe de onde vem. Pois é, quando se vê a manada se entende a zebra.
São quatro gerações, a original, vô Zé Luiz e vó Juraci, queridos mas já falecidos, os filhos e filhas que saíram de Natal e foram para o Rio ou para outras cidades ganhar a vida, os netos e agora os bisnetos. Juntando tudo isso, ou quase tudo, já que parte da família se mantém afastada por brigas e discórdias insuperadas, rende muitas histórias e muitas piadas.


Ponta Negra é um bairro e sua praia de mesmo nome me lembra a Barra há anos atrás quando da construção dos primeiros prédios. Muitas casas de centro de terreno, originalmente um conjunto de casinhas iguais que foram se transformando ao gosto do morador em anos de ocupação.  Há muitos centros de venda de artesanato, alguns shoppings, restaurantes, mas o comércio é pouco voltado para o morador local, prioriza o turista. Pra quem está acostumada a dobrar a esquina e comprar pão, andar léguas sob o sol até a padaria é uma experiência perturbadora.


Na praia, se vende de tudo, de comida a roupas, toalhas de mesa bordadas, artesanato e até musica. Carrinhos com auto-falantes a pleno volume passam sem parar com funk, pagode, forró, axé, tecno-eletro-dubs e afins vendendo seus cds. Piratas, lógico.


A luz é intensa, o dia amanhece as 5 ou 5:30 e não há horário de verão, então, as 6 já estamos de pé, as 9 já estamos cansados de estar em casa, mas sair requer alguma força de vontade, já que os tentáculos da família são longos e fortes e o sol lá fora já é tão forte quanto o de meio dia. É um ar puro, sem poluição. O céu à noite é cheio de estrelas. Bonito.

As histórias de violência na cidade aumentaram, mas nem se compara à banalização do crime do Rio de Janeiro. São roubos de quintal, invasão de casas de veraneio, assaltos no centro, golpes em turistas, etc..
Os taxistas são mal humorados. O morador local é discriminado e uma corrida curta gera muita reclamação. O bom e velho germe cretino do brasileiro que tanto quer se dar bem, já que o turista pode ser enrolado e gastar mais. Até o trocador do ônibus se faz de desentendido pra ver se cola, não devolvendo o troco da passagem.

O povo em geral é receptivo, meio bruto, mas simpático. As ruas são relativamente limpas. Não sei exatamente como por que não vejo lixeiras e nem garis... E falta educação e consciência. Muita gente joga lixo nas ruas e as calçadas são ocupadas por carros estacionados sem critério. Em termos de preços, a cidade se equipara ao Rio de Janeiro, porém os salários são bem menores, o que faz de Natal uma cidade muito cara para o morador. Os funcionários de lojas e restaurantes são visivelmente insatisfeitos, o que me faz crer em um regime exploratório de empregos.  

Um hábito me chamou a atenção. Demorei para descobrir, por que raios algumas garotas andavam com um band-aid na sobrancelha. Comecei a ver com certa frequência e desconfiar de alguma moda e até temer um serial-killer. Mas descobri que se trata de um ritual para os aprovados no vestibular. Os garotos raspam as cabeças, mas as garotas aqui raspam uma das sobrancelhas. Fica medonho! Mas o orgulho delas é grande.

Hoje, só uma semana depois de chegar, estive no centro da cidade, bairro da Ribeira e imediações com suas edificações antigas, muito art deco, simples mas bem característico, edifícios neo clássicos, neo coloniais, chalés... Mas infelizmente a maioria está bem deteriorada pelo tempo.


O comércio esconde as fachadas sujas com letreiros medonhos, o Iphan atua timidamente, o povo não aprecia nem reconhece valor nesses prédios. São prédios velhos que ninguém entende por que estou interessada. As igrejas principais e alguns edifícios importantes, estão relativamente preservados.


Vejo também muitos elementos de herança modernista, principalmente cobogós de várias formas e tamanhos usados fartamente para privilegiar a ventilação cruzada e, como muxarabi, para quebrar a visão de fora para dentro. Nas ruas próximas às margens do rio Potengi, onde ainda mora uma população ribeirinha, as casinhas ainda preservam suas fachadas de porta e janela com elementos decorativos e geométricos.

O Forte dos Reis Magos é uma pérola preservada. A obra de Câmara Cascudo é um bem inestimável para a cultura e história do povo brasileiro, e aqui, bancas de jornal não se encontram facilmente, se chamam cigarreiras e vendem de tudo.

A viagem segue...



domingo, 23 de janeiro de 2011

Almirante II

Almirante é minha casa
onze anos
muitas mudanças
amigos e histórias
É meu lugar
me sinto bem vinda todos os dias.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Na plataforma,
diante do trem às escuras,
sua imagem
refletida veloz no vagão
subitamente some
e o coração
é dragado pelo vácuo.
Neste momento ela acorda.

sábado, 13 de novembro de 2010

Pegando emprestado o pedido

(...)
Que seja carioca no balanço

E veja nos meus olhos seu descanso
Que saiba perdoar tudo que faço
E querendo beijar me dê um abraço
Que fale de chegar e de sorrir
E nunca de chorar e de partir
(...)
Que saiba aproveitar toda a alegria
E faça da tristeza o que eu faria
Que seja na medida e nada mais.

domingo, 7 de novembro de 2010

Pausa para a vida real

Hoje, disse que não escrevo por que estou feliz.
O que fazer...
Estou feliz.
Feliz com o acordar de manhã e pedalar ouvindo minhas músicas.
Observar as pessoas no metrô pela manhã rumo ao trabalho.
Curtir a espera da surpresa desejada.
Sentir a energia que circula pelo corpo.
A inexplicável fé no futuro e a compreensão de que
o presente é o que tem que ser e, ponto.
Sentir o amor, tocar o vento, sonhar, desejar, ser eu mesma.
Ser eu mesma e compartilhar com os amigos.
Ter a coragem de ser irresponsavelmente como sempre quis ser e acreditar que posso tudo.
Sem dramas, sem obstáculos, sem sofrimento.
Com tantas distrações, esqueci de escrever.
Fui viver.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ferreira Gullar

Dois e dois: quatro


Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.