domingo, 25 de dezembro de 2011


Um mês
Tempo passado em nuvens de absurdos
Nesse tempo, me apressei em equilibrar os pratos que sobraram na bandeja.
Sem prestar atenção, fui deixando o tempo curar o estrago causado pelas irresponsabilidades da alma.
Por vezes, quando prestes a perceber o vazio, virava a cara e olhava para outro lado, sem querer contar os minutos sem sua presença.
Sua não presença é tão absurda quanto sua presença ausente de hábito, o que me faz não compreender o que aconteceu e igualmente não posso explicar o que ainda me prende.
O som que vem de dentro ainda espera uma resposta mesmo que de um eco vago no escuro.
O limo do fundo, revolvido com a maré ainda não assentou.
Ainda passa em nuvens de desgosto e de uma realidade propositadamente ignorada, nublando um sentimento em que eu acreditava ou pensava acreditar.
Por vezes, um delírio se instala e quer tudo de volta. Mas a memória é cruel e me arremessa de volta à realidade da parede com toda força.
É quando dói.
...ainda...


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Mais um conto para distrair a morte

O dia difícil, dolorido, ganhara uma tempestade ensurdecedora.
Ali, presa entre os livros, a chuva lá fora e os ventos aqui dentro,
me peguei pensando qual o significado de tudo aquilo.
Um trovão pareceu me dizer
Renda-se!
Desista!
Pare!
Depois da chuva, me encontro com o que fora arrastado pela água.
Mais a deriva do que nunca, voltei pra casa sem mim.
Me deixei vagando pela rua, devastada, a procura dos pedaços do que eu mesma parti.
Dormi afogada pelos meus pesadelos e acordei cinza.
Segui mecânicamente mais um dia desejando em vão voltar para o sonho.
Ainda perdida, apelo a Cherazade e conto mais uma noite.
Agora estou aqui novamente sem rumo, sem vento, sem chuvas, sem mim,
que saí pela porta e não sei quando vou voltar.


Sempre em desassossego me encontro


[10]
E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe
de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados.


O livro do desassossego
FP

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Máscara


Com os olhos cegos,
já não se via mais.
Personagem ausente de si mesmo,
inexistente ao outro,
escondido sob camadas inventadas,
sem identidade,
morre só,
não existiu.

domingo, 4 de setembro de 2011

Tartaruga, Mãe Terra

Hoje cedo, tomei coragem e fui pedalar tentando buscar forças para encarar meu domingo de trabalho. 
Céu azul, friozinho de inverno ainda, se eu ficasse em casa correria serio risco de ficar de pijamas o dia todo. Precisava da energia para o trabalho. Energia mais mental que física.
Peguei a bike, o celular já estava com os fones prontos e fui.
O aterro lotado, fui guiando devagar dei minhas voltas de rotina e encerrei na Kombi do coco, onde sempre paro para hidratar. Sempre tem algum grupo de formandos fazendo a clássica foto de turma em frente ao Pão de açúcar, hoje não foi diferente. Comprei meu coco e sentei na mureta da beira das pedras. Estava cheio de gente, mas eu só ouvia a música dos fones. Fiquei ali olhando o mar e dali a pouco ela surgiu. Botou a cabeça pra fora d´água para respirar deu um mergulho e sumiu. Era uma enorme tartaruga!!! Fiquei ali esperando. Olhei em volta, ninguém parecia ter notado sua aparição. Ou então eu é que não estou acostumada com o fato e me senti privilegiada. Depois de uns minutos, lá veio ela de novo, e depois outra vez, e outra. Juro! ninguém estava notando!!! Pensei em chamar a atenção mas tive a impressão que ninguém ia se importar por ser uma tartaruga e não um saco plástico, então resolvi desfrutar sozinha da sua companhia e me apropriar do seu recado. 
Chegando em casa, fui buscar meu livro pra traduzir a mensagem que acabara de receber. E aí vai.

"Tartaruga...Grande Mãe,
Alimente meu espírito
Agasalhe meu coração
Para que eu possa servi-la também.

Nos ensinamentos dos índios norte-americanos,a Tartaruga é o símbolo mais antigo do Planeta Terra.É a personificação da energia das deusas e tb da eterna Mãe ,da qual derivam nossas vidas.Nós nascemos das entranhas da Terra e nossos corpos retornarão para a necessidade de honrar a Terra e respeitar a necessidade de dar e receber,dando para a Terra aquilo que dela recebemos. 
A Tartaruga possui uma carapaça similar àquela empregada há milênios pela Terra para proteger-se das profanações das quais é vítima. A proteção da Mãe Terra manifesta-se nas mudanças que ocorrem em sua superfície,nos abalos sísmicos,na atividade vulcânica,que faz surgir novas porções de Terra e nas alterações climáticas 
Assim como a Tartaruga,vc tb possui carapaças que o protegem da inveja,do ciúme,das agressões e da inconsciência alheia.O Totem da Tartaruga o ensina, por seus padrões de comportamento, a saber se proteger. Se você está sendo incomodado pelas palavras e ações dos outros é tempo de se recolher dentro da sua carapaça para demonstrar que vc não pretende aceitar estes ataques passivamente.É hora de lançar um sinal de alerta. 
Se você tirou a carta da Tartaruga,é sinal de que você está sendo convidado a honrar a fonte curadora que existe em seu interior,a buscar uma conexão maior com a Terra,e a observar sua própria situação atual com compaixão maternal. Use as energias da Terra e da água -as duas moradas da Tartaruga-para ver sua situação presente de vida fluindo de maneira harmoniosa e para fincar firmemente seus pés na Terra num lugar de poder. 
A Tartaruga é uma excelente professora da arte de encontrar uma ligação maior com a Terra. Usando o poder de cura da Tartaruga,você será capaz até mesmo de superar sua tendência de viver no Mundo da Lua.Aprendendo a manter os pés no chão ,vc será capaz de focalizar melhor seus pensamentos e suas ações,aprendendo a relaxar,a desacelerar e a encontrar a paz que possibilitará a concretização de seus ideais 
Com sua calma proverbial a Tartaruga o adverte do risco de tentar "apressar a corrente do rio" .O milho colhido antes do Tempo não atinge a plenitude,mas se deixarem que ele amadureça em seu próprio ritmo,ele se desenvolverá bastante e servirá de alimento para um número maior de pessoas 
A Tartaruga enterra seus pensamentos na areia ,como faz com seus ovos,deixando ao sol a missão de choca-los.Isto a ensina a amadurecer suas idéias antes de deixa-lás virem a Luz.Lembre se da antiga fábula da Lebre e da Tartaruga e decida por si mesmo se você vai se alinhar com a Tartaruga ou coma sua oponente .Ser grande ,forte e rápido não são necessariamente os melhores requisitos para se atingir um objetivo,pois quando vc chegar à sua meta podem lhe perguntar onde esteve, e talvez vc não seja capaz de responder esta pergunta.Neste caso chegar prematuramente à meta pode fazê-lo sentir se muito imaturo.Siga o fluxo da correnteza do rio. 
Se vc tirou a carta da Tartaruga isto é um prenúncio de um período na qual vc terá uma conexão maior com o poder da Terra e da Deusa Mãe que reside em seu interior. Não importa em que situação s emeteu,se vc pedir ajuda à Deusa Mãe ela resolverá o seu problema e trará abundância à sua vida."
Do Livro:Cartas Xamânicas de Jamie Sams & David Carson

Pois é, mais uma vez preciso e direto o recado. 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Paraty



Rua do Fogo.

Soube depois, antiga rua de amores.
Andei por ali desavisada apenas sintonizando a energia das pedras do calçamento.

A caminho do pier, espiava as portas das casas e imaginava seus segredos. Algumas, embora conservadas, pareciam ocas, quase tristes, sem alma, sem gentes, sem fogo.
Mas nem mesmo esse clima de cenário consegue evitar que eu me emocione a cada vez que perambulo pelas ruas de calha por onde o mar se espraia nas marés de Paraty.

Não esperava te encontrar ali, já que passara pela cidade semanas antes. Mas num susto te vi passar, tão distraído quanto eu. 
Passei a caminhar a distância, te acompanhando sem pressa.
Te vi parar e admirar os telhados onde plantas teimosas crescem no limo das telhas. 
Passei por você novamente sem chamar a atenção. Entrei numa rua e contornei o quarteirão tentando adivinhar seu caminho. Esperei te surpreender na próxima esquina de onde vinha o som de um acordeon melodioso, um convite naquela manhã cinzenta e de ar frio e úmido. 
Eu estava certa, lá estava você observando a musica. A moça que tocava o instrumento era bonita e tinha um sorriso sereno que não se desfazia nem por um segundo. Eu parei misturada às pessoas e você, no seu tempo, não percebeu minha presença.

Logo despertei do desejo que era tão real quanto sua presença.
De fato, você não estava ali. 
Segui um tanto melancólica como como se faz nesses momentos, mas feliz de ter partilhado com você aqueles poucos instantes. 
Durante toda a viagem, você me tornou a passar. 
Tão transparente e presente quanto a maresia.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Borges explica

Naquele preciso momento o homem disse:
"O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto."
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.

Nostalgia do Presente
J.L.Borges