sábado, 3 de novembro de 2012

encontros e dez encontros


















Eu perdi, ha muito tempo...
mas não perdi na rua ou no trem.
Perdi aqui dentro.
Não aqui na sala,
mas no peito, bem na caixa.
Demorou, mas encontrei.
Está aqui bem guardado agora.
Não está preso. Está livre.
Quando quer, se vai.
Mais cedo mais tarde volta.
Quando some uns tempos, dói.
Dói mais quando volta de repente, sem aviso.
Sem ar.
Mas fica e adormece outra vez no seu canto.
Até um dia quem sabe, ser acordado por uma flor.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Ensaio

Parou por um instante no hall do prédio
Lembrou de Cortazar e pensou que precisaria mais do que as suas instruções para subir escadas para fazê-lo chegar à porta de Laura no segundo andar.
Estava paralizado entre o medo e o desejo. A mochila pesava nas costas, as pernas tremiam, mal respirava. De repente um estrondo quase o matou de susto e o trouxe de volta do transe. Era um morador que ao entrar no prédio soltou displicente a pesada porta de ferro trabalhado.
_Vai onde? Tá perdido? Perguntou o morador.
_Estou esperando um amigo. Mentiu sem pensar, torcendo para não ter que responder uma segunda pergunta.
O Morador só fez um sinal com a cabeça e subiu as escadas desaparecendo na curva do corredor.
_Bom... pensou. Tenho que fazer isso. Quero fazer isso!
E subiu. 
Degrau por degrau, lentamente, foi observando o piso de mármore, o gradil da escada com flores forjadas em ferro retorcido coberto por grossas camadas de tinta preta e dourada. No ar um cheiro de pó de tempo misturado com especiarias do jantar de alguém. Sua respiração tinha entrado em compasso com cada degrau alcançado. Admirava o prédio já fazia algum tempo mas nunca pensou que conheceria alguém que morasse lá. 
Muito menos uma mulher. 
Ela o esperava. E ele sabia que era esperado. Isso só aumentava a tensão. 
O que dizer ao abrir a porta? Oi!? Só oi e os olhos dirão o resto? Como será que ela vai estar vestida? Que cheiro tem seu apartamento? O que estou fazendo?! Por que vim até aqui?! O que espero que aconteça? Vou ter uma amante agora? Que patético, amo minha mulher! O que ela vai pensar de mim? O que eu vou pensar de mim? Não quero virar um clichê ridículo e previsível. Foco! Vou só ver os quadros, fazer a entrevista e escrever minha critica. 
Laura pintava. Fizera sua primeira exposição há três semanas. Foi onde se conheceram. Ele se lembra que não queria sair naquela noite. Reclamou mas acabou indo com a mulher ao vernissage. Ao chegar, o barulho das pessoas conversando, a musica alta, o deixaram tonto. Foi quando a viu de longe, e tudo era então só silêncio. Ela estava expondo com os seus amigos na coletiva. Foram devidamente apresentados, ele, Jonas, jornalista da coluna cultural do jornal aspirante a escritor e ela, Laura, formada em artes na França, de volta a cidade trazendo alguns dos seus trabalhos. Conversaram sobre arte e sobre o que move as pessoas, e ela pediu que ele escrevesse sobre seu trabalho. O oco silencioso em que estava imerso só permitia que ele ouvisse sua voz. Seus olhos só enxergavam Laura na sua frente. Estava perdido. De repente num salto estava ali, depois de evitar por semanas o convite com medo dele mesmo. Finalmente, o ultimo degrau vencido, lá estava a porta. Tocou, a porta foi aberta e ali começou outra história.



[107]


A sacola caída na entrada da casa deixava escorrer seu conteúdo no piso antigo, trincado de tempo.
Tinhas deixado um bilhete.
Não estava.
Minha mão gelada não conseguia girar a chave.
Sem forças para vencer a tranca, sento-me no degrau em frente à porta esperando que, em um instante, ela se abra e você apareça para o resgate.
Permaneço imóvel tentando me esconder de mim mesma.
Num momento de lucidez, quando a lágrima fria vazou o tecido da saia, me levanto, recolho a sacola e saio novamente.
Estou sem lugar.
Minha concha está vazia. As ondas invadiram meu refugio e levaram tudo que eu tinha.
Estou boiando sem pulso ouvindo o canto do mar.

Drummond


Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Drexler pela manhã


Al Otro Lado del Río
Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

El día le irá pudiendo poco a poco al frío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

En esta orilla del mundo lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Seguindo viagem



Mapas não tenho.
Me guio mais facilmente de olhos fechados.
Tenho uma bússola aqui dentro.
Meu coração
Lá de cima, da Gávea, a razão as vezes grita:
Páaaaaaara!
E ele para por uns instantes.
Prende a respiração.
Fica quieto.
Espera a razão se distrair com outras coisas
... e retoma seu ritmo.
Corre atrás de uma saudade,
sufoca a garganta e quase salta pela boca com gosto de lágrima.
Depois canta e encontra de novo sua frequencia.
Sem mapas, sem manual de instruções, sem lei.
Se perde e se encontra.
Todo santo dia.

As velas iluminam o caminho.
E dele, guardo a memória, as vezes uma pedra, uma folha, uma concha, uma história.






quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O sorriso na escuridão


Coragem, para meus oito anos, era ir ao banheiro sozinha nas noites insones de pesadelos.
Para os 13, era me deixar levar pelo primeiro amor.
Para os 14, era deixá-lo ir embora e me jogar no mundo a procura de mim.
Quando aos 23 resolvi casar era ao mesmo tempo um ato de coragem e de completo pavor de ficar sozinha comigo mesma. 
As escolhas nem sempre são simples e imediatas. O medo de ir por um caminho e perder o outro nos paralisa diante da porta aberta, do carro engrenado, da mão estendida. 
Os anos foram passando, as coragens foram mudando de cor, de tempo e de forma. Algumas desistiram de mim, outras demoraram a amadurecer. Acho que não reguei corretamente e a cura foi tardia. 
Tem coragem que já nasce com a gente, tem coragem que se aprende a ter. Tem coragem para uns que é medo para outros e tem coragem que se cria do medo. Eu nem menstruava ainda, mas já sabia que ia ter um filho. O medo de uma cesariana, que vi uma tia recém parida levar mais de um mês para se restabelecer, me criou a coragem de acreditar que, para mim, não haveria melhor opção que um parto mais que natural mesmo este sendo tão assombrosamente pintado e descrito como a maior das dores do mundo. 
A coragem é volátil, os medos o vento e não há melhor sensação do que aquela que se percebe quando um medo antigo se transmutou em coragem e naturalmente aquilo que era impossível de se fazer se torna a mais nova realidade da vida. Basta chegar a hora certa, o momento da escolha entre pular ou dormir. 
Coragem não é um ato irresponsável movido por um mero e insignificante impulso. Coragem se cultiva, se dá atenção, se respeita, se busca lá de dentro. Como aquela que depois dos trinta anos nos faz olhar para o espelho e sem as máscaras usuais dizer: Agora acabou a brincadeira. Vamos ter uma conversa olho no olho. Quem dá ouvidos a essa coragem e sai no dia seguinte nu, vai descobrir que ganhou mais uma ferramenta de sobrevivência, a aceitação do imperfeito.
Ainda tenho muitas coragens no meu canteiro esperando rega e uma conversinha de pé de ouvido. Tenho alguns medos também, que serão muito úteis para alimentar a coragem e desafiar o orgulho. O importante é que em qualquer tempo, é possível se ter nas mãos sua coragem e fazer o que se quer com ela. Seja mudar de profissão, enfrentar pela primeira vez uma platéia, realizar um sonho de infância, experimentar algo novo e impensado como viajar sem rumo ou viver mais quarenta anos ao lado de quem se ama. 
Tudo é possível, especialmente numa noite em que a lua sorri para você.